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Colecção dos artigos do autor publicados no jornal digital ROSTOS, bem como de algumas peças do mesmo tema, não publicadas. Esta série de textos tem por objectivo colocar à disposição dos nossos leitores algumas ferramentas, na forma de definições, que permitam que, cada um por si, faça a sua leitura das entrelinhas dos discursos políticos e enriqueça o seu vocabulário.
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Pedro Estadão
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Há líderes políticos, militares, empresariais, académicos e religiosos que impressionam pela força da sua imagem pessoal, do seu discurso, das suas acções ou das suas histórias de vida. Hoje vamos dar início, nestas páginas, a uma série de breves biografias de grandes líderes do Séc. XX, visitaremos os discursos e as biografias de John Kennedy, Mohandas Ghandi, Kemal Ataturk, Winston Churchill, Benito Mussolini, o Dalai Lama, Mao Tse Tung, Albert Einstein, George S. Patton, Henry Ford, Nelson Mandela, Vladimir Ilich Ilianov, T.E. Lawrence, entre outros que marcaram o ritmo e os eventos do Século passado.
Tentaremos, sempre que possível, enquadrar as suas vidas nos momentos históricos que viveram, acrescentando, para isso, títulos a este breviário que se encontrem relacionados com os episódios relevantes. Hoje abordaremos a história de John FItzgerald Kennedy. Os seus discursos envolventes e motivantes, que nunca nos cansamos de voltar a ouvir, aliados a uma história trágica, converteram este Presidente dos Estados Unidos da América num ícone do Séc.XX, para a história da Europa fica o seu discurso de Berlim, que foi, na nossa modesta opinião, um dos seus melhores, tendo fixado na história um dos momentos mais marcantes da Guerra Fria.
Em Junho de 1963, o Presidente John Kennedy iniciou uma visita a cinco países da Europa Ocidental com o propósito de aumentar a boa vontade e a unidade entre os aliados dos E.U.A.. A sua primeira paragem foi na República Federal da Alemanha, uma nação que, menos de vinte anos antes tinha estado envolvida num projecto de conquista mundial sob a ditadura de Hitler. A seguir à derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o país tinha sido dividido em dois, com o Leste sob controlo da União Soviética e o Oeste tornando-se uma nação democrática.
A Alemanha dividida cedo se tornou um foco de tensões entre as duas novas super potências mundiais, os Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Berlim, a anterior capital alemã, tornou-se o ponto quente político desse período a que se veio a chamar “Guerra Fria”. Apesar da cidade estar localizada na Alemanha de Leste, Berlim encontrava-se dividida, com Berlim Leste sob o controlo da URSS e Berlim Ocidental sob jurisdição Americana, Inglesa e Francesa.
Em 1948, os Soviéticos levaram a cabo um bloqueio temporário de Berlim Ocidental, cortando-lhe todos os acessos por via terrestre. Durante os onze meses que se seguiram, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha levaram a cabo uma ponte aérea maciça, levando quase dois milhões de toneladas de comida, carvão e matérias primas à cidade cercada.
Em 1961, o governo da Alemanha Oriental, que era liderado por Walter Ulbricht, erigiu uma barreira de arame farpado em volta da parte ocidental de Berlim, numa extensão de cerca de 150 Km. Esta barreira foi oficialmente chamada “antifaschistscher shutzwall”, (barreira de protecção anti-fascista), e as autoridades da Alemanha Oriental argumentaram que servia para impedir a entrada na RDA, (República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental), de espiões e agentes da Alemanha Ocidental (RFA), que eles consideravam um estado fascista. No entanto, esta obra tornou-se universalmente conhecida como o “Muro de Berlim” e a opinião maioritária era que o seu propósito era impedir os cidadãos da Alemanha Oriental de fugir para o Ocidente.
Ao longo de um período de meses, a barreira foi reconstruída usando betão armado e os edifícios que se encontravam na sua proximidade foram demolidos para criar uma zona morta, permanentemente vigiada por guardas da RDA armados com metralhadoras. Em 1962, a primeira tentativa de fuga que resultou na morte de um cidadão da RDA, tirou a vida a Peter Fechter. Até à queda do muro, foram abatidas perto de duzentas pessoas, das que tentaram a fuga para o Ocidente.
O Presidente Kennedy chegou a Berlim a 26 de Junho de 1963, depois de visitar Bona, Colónia e Frankfurt, onde havia discursado perante multidões extasiadas. Em Berlim, uma imensa multidão reuniu-se na Rudolph Wilde Platz, (que hoje se chama John F. Kennedy Platz), perto do muro, para ouvir o Presidente Americano que fez o seu discurso mais memorável e o concluiu com a frase que ficou para a história: Ich bin ein Berliner.
“Eu sou um cidadão de Berlim” , disse Kennedy, reafirmando o apoio dos Estados Unidos da América à Alemanha Ocidental, num discurso em que foi ladeado pelo Presidente da Câmara de Berlim, Willy Brandt, e que constituiu uma injecção de moral para os cidadãos da cidade cercada que temiam uma invasão por parte da Alemanha de Leste. Falando da varanda da Rathaus Shoeneberg, Kennedy afirmou:
“Freedom has many difficulties and democracy is not perfect, but we never had to put a wall up to keep our people in.”
(A liberdade tem muitas dificuldades e a democracia não é perfeita, mas nunca tivemos de erigir um muro para manter o nosso povo cá dentro.)
Fica ainda desse discurso a afirmação:
“Two thousand years ago the proudest boast was “civis romanus sum”. Today, in the world of freedom, the proudest boast is ´Ich bin ein Berliner´... All free men, wherever they may live, are citizens of Berlin, and, therefore, as a free man, I take pride in the words ´Ich bin ein Berliner!´ ”
(Há dois mil anos, a afirmação mais orgulhosa era “civis romanus sum”, (sou cidadão de Roma). Hoje, no mundo da liberdade, a afirmação mais orgulhosa é “ich bin ein Berliner”, (sou um cidadão de Berlim)... Todos os homens livres, onde quer que residam, são cidadãos de Berlim e, portanto, com homem livre, tenho orgulho nas palavras “ich bin ein Berliner”!)
John Fitzgerald Kennedy foi o 35.º Presidente dos Estados Unidos da América e foi assassinado aos 46 anos de idade, ao longo da sua presidência, ocorreram eventos, que terão lugar neste breviário, como a Invasão da Baia dos Porcos, a Crise dos Mísseis Cubanos, a construção do Muro de Berlim, a Corrida Espacial, o Movimento Americano dos Direitos Civis e os primeiros eventos da Guerra do Vietname. Hoje vamos conhecer a história deste homem:
22- John Fitzgerald Kennedy, 35.º Presidente dos Estados Unidos da América
John Fitzgerald Kennedy nasceu a 29 de Maio de 1917 em Brookline, no Estado de Massachussets, de uma família de ascendência Irlandesa e tradicionalmente Católica. Foi o esundo filho de Joseph Patrick Kennedy Sr. e de Rose Fitzgerald. O seu avô materno tinha sido uma figura proeminente na política de Boston, de que chegou a ser Mayor e representante no Congresso dos Estados Unidos da América ao longo de três mandatos. O seu pai chegou a ser Embaixador dos Estados Unidos em Londres.
Aos dez anos de idade a família Kennedy mudou-se para uma mansão em Rverdale, no Bronx Nova-Iorquino, e, dois anos mais tarde, voltaram a mudar-se, desta vez para Bronxvill, em Nova-Iorque. Ai, John Kennedy, tornou-se membro dos Escuteiros, tendo-se mais tarde tornado no primeiro Presidente Americano que fez parte do movimento Escutista.
Depois de ter iniciado a escola no ensino público, no 5.º Ano foi inscrito numa escola privada para rapazes em Riverdale, onde ficou até ao final do 7.º Ano de escolaridade. Ao iniciar o 8.º Ano, em Setembro de 1930, Kennedy foi enviado para a Canterbury School, um internato Católico para rapazes a 80 Km. de distância de sua casa. Em Abril de 1931, foi operado a uma apendicite, pelo que abandonou aquela escola e voltou para casa. Em Setembro do mesmo ano, foi inscrito noutro internato, desta vez a Choate School em Wallingford, no Conneticut, onde faria a preparação para a Universidade, do 9.º ao 12.º Ano, co-habitando ai com o seu irmão mais velho que estava dois anos adiantado em relação a ele.
Em Janeiro de 1934, adoeceu e foi internado no Hospital de New Haven, em Yale, e ai permaneceu até à Páscoa, em Junho foi internado na Clínica Mayo, em Rochester, no Minnesota para ser tratado de uma Colite. Acabou a instrução secundária em Choate, em 1935, no seu Livro de Curso, era apontado como “O mais provável de chegar a Presidente”. Em Setembro desse ano embarcou no SS Normandie com os seus pais e a a sua irmã Kathleen, com destino a Londres, onde iria estudar um ano na London School of Economics, com o Professor Harold Laski, acabou por ser hospitalizado com iterícia, e, ao fim de menos de três semanas em Londres, embarcou de volta. Em Outubro inscreveu-se na Universidade de Princeton, mas voltou a ser hospitalizado, desta vez por uma possível leucemia. Com o ano de estudos perdido, no fim da convalescença que durou de Janeiro a Abril, passou dois meses a trabalhar num rancho de gado no Arizona e depois passou os meses de Julho e Agosto em Hyannis Port, a fazer corridas de veleiros.
Em Setembro de 1936, inscreveu-se no Harvard College. No ano seguinte viajou por toda a Europa durante dez semanas. Em 1938, voltou à Europa, desta vez, na companhia do seu pai e do seu irmão Joseph, tendo passado o mês de Julho a trabalhar na Embaixada Americana em Londres e o mês de Agosto com a sua família em Cannes. De Fevereiro a Setembro de 1939, Kennedy faz uma viagem de sete meses em que passa por toda a Europa, incluindo a União Soviética e os Balcãs e passa pelo Médio Oriente, com o fim de recolher informação para a sua tese de final de curso. Passou os últimos dez dias desta viagem na Checoslováquia e na Alemanha, de onde regressou para Londres a 1 de Setembro de 1939, o dia em que a Alemanha invadiu a Polónia. A 3 de Setembro, a família Kennedy encontrava-se na Galeria dos Visitantes da Casa dos Comuns a ouvir um famoso discurso de Winston Churchill a exortar a declaração de Guerra à Alemanha por parte do Reino Unido.
Regressado à América, Kennedy escreve a sua tese final de curso, intitulada “Apaziguamento em Munique”, sobre as negociações Germano-Britânicas relativas ao Acordo de Munique. Inicialmente pretendeu que a sua tese fosse apenas para uso académico, no entanto, o seu pai encorajou-o a publicar a tese em livro. Foi diplomado “cum laude” por Harvard em Relações Internacionais, em Junho de 1940. A sua tese foi publicada em livro, com o título “Porque a Inglaterra adormeceu?”, e tornou-se um best-seller.
De Setembro a Dezembro de 1940, Kennedy foi assistente na Stanford Graduate School of Business. No inicio do ano seguinte, ajudou o seu pai a escrever a suas memórias sobre os seus três anos como embaixador em Londres. Na primavera, alistou-se no Exército dos E.U.A., mas foi rejeitado devido a um problema com as suas costas. Em Maio e Junho, viajou pela América do Sul. Em Setembro voltou a tentar o alistamento, desta vês na Marinha, que o aceitou devido à influência do Director do Gabinete de Ineligência naval, que havia sido adido militar do seu pai, enquanto Embaixador. Kennedy começou com o posto de Aspirante no gabinete que preparava os relatórios para o Secretário de Estado da Marinha. Durante esta época ocorreu o ataque Japonês a Pearl Harbour. Depois de ser destacado para a Escola de Oficiais de Reserva e para a Escola de Navios Torpedeiros, foi enviado para o Panamá e mais tarde para o Pacífico. Participou em vários comandos na campanha do Pacífico e foi promovido a Tenente, sendo-lhe atríbuido o comando do barco de patrulha PT-109.
A 2 de Agosto de 1943, o barco de Kennedy realizava uma patrulha nocturna próximo da Nova Geórgia, nas Ilhas Salomão. A meio da noite, o seu barco foi abalroado pelo destroyer Japonês Amagiri. Kennedy foi lançado através do convés, aleijando-se nas costas. Apesar disso, conseguiu salvar três camaradas, chegando rebocar um deles, a nado, ao longo de cinco quilómetros de mar, até chegarem a uma ilha onde ele e a sua tripulação acabaram por ser, posteriormente recolhidos. Depois deste evento, Kennedy foi condecorado com a “Naval and Marine Corps Medal”. Passou à reserva no princípio de 1945, poucos meses antes da rendição do Japão.
No final da Segunda Guerra Mundial, Kennedy pensou em tornar-se jornalista por uns tempos antes de acabar por decidir seguir uma carreira política.Antes da Guerra, a política tinha sempre estado fora das suas perspectivas pois a família já tinha escolhido o seu irmão Joseph como o futuro político da casa, preparando-o para um dia ser o possível Presidente. Tragicamente, o irmão mais velho morreu na Guerra, colocando John na linha para cumprir as ambições políticas do seu pai.
Em 1946, John Fitzgerald Kennedy concorre a Representante no Congresso, sendo eleito com uma vantajosa margem contra o seu oponente Republicano. Foi congressista durante seis anos, divergindo frequentemente do Presidente Harry Truman e do resto do Partido Democrático. Em 1952 derrotou o candidato Republicano Henry Cabot Lodge Jr., conquistando o seu lugar no Senado dos Estados Unidos da América. Em 1953 casa-se com Jacqueline Lee Bouvier. Nos dois anos seguintes foi operado várias vezes à coluna vertebral e quase morreu, o que fez com que tivesse recebido a extrema-unção quatro vezes durante a sua vida e estivesse afastado do Senado durante bastante tempo. Nessa época publicou o seu livro “Perfis de coragem”, no qual analisava oito circunstâncias em que diferentes Senadores arriscaram as suas carreiras por seguirem as suas convicções pessoais. O livro foi galardoado com o Prémio Pulitzer em 1957.
Em 1956, depois de Adlai Stevenson deixar à Convenção Democrata a tarefa de escolher o candidato a Vice-Presidente, Kennedy ficou em segundo lugar nessa votação, no entanto, obteve bastante exposição pública em função desse facto. A seguir a isso foi eleito para um segundo mandato no Senado.
O Senador Joseph McCarthy era um amigo próximo da família Kennedy e o pai de John era um dos seus maiores apoiantes. Robert Kennedy trabalhava para a sub-comissão McCarthy e McCarthy namorava Patrícia Kennedy. Em 1954, quando o Senado estava prestes a condenar McCarthy, John Kennedy tinha um discurso preparado para censurar McCarthy, mas nunca o chegou a fazer. Quando o Senado publicou a sua decisão de censurar McCarthy, John Kennedy estava hospitalizado. Kennedy nunca indicou como teria votado nessa ocasião.
Em Janeiro de 1960, Kennedy declarou a sua intenção de concorrer a Presidente dos Estados Unidos da América. Ganhou as primárias e, na Convenção Democrata de Julho foi nomeado candidato do Partido Democrata às Eleições Presidenciais. Kennedy pediu a Lindon Johnson para ser o seu candidato a Vice-Presidente. Apesar da oposição da ala Liberal do seu partido, Kennedy precisava da força de Johnson nos Estados do Sul, para ter algumas hipóteses de ganhar aquelas que se previam ser as eleições mais renhidas desde 1916. Os temas que dominaram a campanha foram o re-lançamento da economia, o catolicismo de Kennedy, a situação de Cuba e a corrida espacial e ao armamento com a U.R.S.S.. Para afastar os receios de que o seu catolicismo tivesse impacto no voto dos Americanos, maioritariamente protestantes, declarou, num famoso discursoem Houston: “Não sou o candidato católico a Presidente, sou o candidato do Partido Democrata a Presidente, que por acaso também é católico. Não falo pela minha Igreja em assuntos públicos, e a Igreja não fla por mim”. Kennedy também suscitou o facto de um quarto dos cidadãos Americanos serem relegados para segundo plano pelo facto de serem Católicos.
Em Setembro e Outubro, Kennedy debateu com o candidato Republicano, o Vice-Presidente Richard Nixon, nos primeiros debates televisivos da história da televisão Americana. Durante os debates, Nixon apareceu tenso e descorado, enquanto Kennedy apareceu composto, isto levou a audiência televisiva a dar a vitória a Kennedy, enquanto que a audiência radiofónica deu a vitória a Nixon. Nixon não usou maquilhagem para o debate, ao contrário de Kennedy. Estes debates são considerados como um marco histórico, sendo o momento em que o meio televisivo passou a ter importância na política.
John Fitzgerald Kennedy tomou posse como Presidente dos Estados Unidos da América a 20 de Janeiro de 1961. No seu discurso inaugural falou da necessidade dos cidadãos tomarem um papel activo. A sua afirmação mais famosa: “Não perguntem o que o vosso país pode fazer por vós, perguntem o que vocês podem fazer pelo vosso país”, foi feita nessa ocasião, na qual também exortou todas as nações do mundo a lutar em conjunto contra os “inimigos comuns do Homem: a tirania, a pobreza, a doença e a própria guerra”.
Pouco tempo depois de tomar posse, Kennedy é confrontado com um plano que estava, secretamente, em preparação, desde a Administração Eisenhower, para derrubar o Regime de Castro, em Cuba. O plano, desenvolvido pela CIA sem a participação do Departamento de Estado, consistia em armar um exército de insurgência contra-revolucionária, constituído por Cubanos anti-Castro. Rebeldes Cubanos treinados pelos E.U.A. invadiriam Cuba e instigariam uma sublevação popular, na esperança de derrubar o Ditador Castro. A 17 de Abril de 1961, Kennedy deu a sua aprovação à prossecussão do plano previamente aprovado. Apesar de Kennedy não autorizar a utilização de apoio aéreo por parte dos E.U.A., a CIA prosseguiu com o envio de 1500 exilados Cubanos, a que chamaram a Brigada 2506, para o que ficou conhecido como a Invasão da Baia dos Porcos. A 19 de Abril, o Governo Cubano tinha morto ou capturado todos os invasores, e Kennedy foi forçado a negociar a libertação dos 1189 sobreviventes. A falha do plano teve base na completa falta de diálogo entre as chefias militares, que resultou na total ausência de apoio naval frente a forças de artilharia bem organizadas na ilha que facilmente incapacitaram a força invasora nas praias onde desembarcou. Ao fim de 20 meses, Cuba libertou os prisioneiros em troca de 53 milhões de dólares em comida e medicamentos.
Este incidente, para além do grande embaraço que provocou aos Estados Unidos, fez Castro passar a olhar para os Americanos com suspeição, e a acreditar que mais tarde ou mais cedo, teria lugar outra invasão. Isto levou a que Cuba reforçasse a sua colaboração militar com Moscovo e optasse definitivamente pela implementação de um regime do tipo Comunista.
A 14 de Outubro de 1962, aviões espiões U-2 Americanos tiraram fotografias da construção de um silo de mísseis balísticos de alcance intermédio Soviético, em Cuba. Começara a Crise dos Mísseis Cubanos. A 16 de Outubro, as fotografias chegaram às mãos de Kennedy. A América enfrentava a ameaça do nuclear. Colocou-se então, a Kennedy, um dilema: se os E.U.A. atacassem esses silos, isso poderia provocar uma guerra mundial com a U.R.S.S., se nada fizessem, teriam de viver com a ameaça perpétua de armas nucleares na sua região, a uma proximidade tal que se os mísseis fossem lançados, os E.U.A. não teriam tempo de retaliar. Outra ameaça era a de os Estados Unidos aparecerem ao mundo como fracos no seu próprio hemisfério. Kennedy ordenou um bloqueio naval em que os Estados Unidos passariam a inspeccionar todos os navios que se dirigissem a Cuba.
Kennedy iniciou negociações com os Soviéticos e ordenou-lhes que retirassem todo o material “defensivo” que estava a ser construído na ilha de Cuba, caso contrário, os povos Cubano e Soviético seriam confrontados com bloqueios navais. O mundo esteve à beira da Guerra Nuclear. Uma semana mais tarde, chegou a um acordo com Nikita Khrutchev, o primeiro-ministro Russo. Khrutchev acordou em retirar os mísseis de Cuba enquanto os Estados Unidos prometeram publicamente nunca invadir a ilha, desde que inspectores das Nações Unidas pudessem verificar a retirada. Kennedy também prometeu, secretamente, retirar nos seis meses seguintes, os mísseis que os Estados Unidos tinham na Turquia.
Argumentando que “aqueles que tornam a revolução pacífica impossível, tornam a revolução violenta inevitável”, Kennedy tentou conter o comunismo na América Latina estabelecendo uma Aliança para o Progresso, que enviava ajuda humanitária aos países em dificuldades na região e procurava elevar os padrões dos direitos humanos nesses países.
Em seguida, Kennedy criou o Peace Corps, uma organização através da qual os Americanos se podiam voluntariar para a ajuda a países sub-desenvolvidos em áreas como a educação, a agricultura, a saúde e a construção.
Entretanto, no Sudoeste Asiático, Kennedy seguiu a política de Eisenhower de utilizar acções militares limitadas para combater os forças comunistas lideradas por Ho Chi Minh. Proclamando a luta contra a expansão do Comunismo, Kennedy pôs em prática políticas de apoio político, económico e militar ao instável Governo instalado pela França no Vietname do Sul, o que incluiu o envio de dezasseis mil conselheiros militares e tropas especiais para aquela área. Kennedy também aprovou o uso de zonas de fogo livro, napalm, desfolhantes e aviões a jacto. O envolvimento Americano naquela zona cresceu continuamente até que forças regulares Norte-Americanas estavam no terreno na Administração seguinte.
A Administração Kennedy aumentou o apoio militar mas o exército Sul-Vietnamita não era capaz de fazer frente aos movimentos pró-independência do Viet-Minh e do Viet-Cong. Em Julho de 1963, Kennedy enfrentava uma crise no Vietname. A resposta da sua Administração foi auxiliar num golpe de estado contra o Presidente Ngo Dinh Diem. Em 1963, um grupo de Generais Vietnamitas derrubou o Governo de Diem, prendendo-o e depois matando-o, sendo que as circunstâncias exactas da sua morte permanecem pouco claras até aos dias de hoje. Kennedy sancionou o derrube de Diem. Uma razão para o apoio ao golpe foi o receio de que Diem pudesse negociar uma coligação de Governo com os Comunistas, como tinha ocorrido no Laos em 1962. Continua a ser controverso o debate sobre se a situação no Vietname teria chegado ao ponto que chegou se Kennedy tivesse cumprido o seu mandato até ao fim. A alimentar esta controvérsia existem declarações do Secretário de Estado da Defesa de Kennedy, Robert MacNamara, de acordo com as quais Kennedy estaria a pensar retirar do Vietname a seguir às eleições de 1964, adicionalmente, existe uma ordem dada por Kennedy a 23 de Outubro de 1963 para a retirada de mil efectivos até ao fim do ano. Após o seu assassinato, o novo Presidente Lindon Johnson, imediatamente anulou essa ordem de Kennedy, a 26 de Novembro de 1963.
Sob pressões opostas e simultâneas dos Aliados e dos Soviéticos, a Alemanha encontrava-se dividida. O Muro de Berlim isolava Berlim Ocidental como um enclave no meio da Alemanha de Leste, que se encontrava sob domínio Soviético. A 26 de Junho de 1963, Kennedy visitou Berlim Ocidental e fez um discurso público, criticando o Comunismo, usando a construção do muro para defender a sua tese: “A Liberdade tem muitas dificuldades e a democracia não é perfeita, mas nunca tivemos de construir um muro para manter o nosso povo cá dentro”. O discurso ficou famoso pela sua frase “Ich bin ein Berliner”. Quase cinco sextos da população estavam na rua quando Kennedy disse a famosa frase. Mais tarde, diria aos seus asssistentes: “Nunca teremos outro dia como este”.
Atormentado pelos perigos a longo prazo da contaminação radioactiva e da proliferação do armamento nuclear, Kennedy promoveu a adopção de um Tratado Parcial de Proibição de Testes Nucleares, que proibia testes no solo, na atmosfera e debaixo de água, mas não proibia os testes subterrâneos. Os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Soviética foram os primeiros signatários desse tratado. O tratado foi passado para a Lei em Agosto de 1963.
Kennedy chamou à sua política interna a “Nova Fronteira”. Prometia, de forma ambiciosa, financiamento federal para a educação, assistência médica para os idosos e intervenção governamental para parar a recessão. Kennedy também prometeu acabar com a discriminação racial. Em 1963, propôs uma reforma fiscal que incluía cortes nos impostos sobre os rendimentos, mas esta reforma só foi aprovada pelo Congresso em 1964, após a sua morte. Poucos dos maiores planos de Kennedy foram aprovados pelo Congresso durante a sua vida, no entanto, o Congresso acabou por votá-los em 1964 e 1965.
Como Presidente, Kennedy assistiu à última execução Federal e à última execução militar até à data.
O turbulento fim da era da discriminação racial sancionada pelo estado era um dos assuntos internos mais complexos da era de Kennedy. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos determinara em 1954 que a segregação em escolas públicas era inconstitucional, no entanto, muitas escolas, sobretudo nos Estados do Sul, não obedeceram à ordem so Supremo Tribunal. A segregação nos autocarros, em resturantes, cinemas, casas de banho e outros espaços públicos persistia. Kennedy apoiava a integração racial e os direitos civis e, durante a campanha de 1960, telefonou a Coretta Scott King, mulher do Reverendo Martin Luther King Jr. que estava preso. A intervenção de John e Robert Kennedy permitiu a saída prematura de Luther King da prisão.
Em 1962, James Meredith tentou inscrever-se na Universidade do Mississipi, mas foi impedido por estudantes brancos. Kennedy respondeu com o envio de quatrocentos agentes federais e três mil militares para garantir que Meredith poderia assistir à sua primeira aula. Depois de um incidente semelhante na Universidade do Alabama, Kennedy fez o seu famoso discurso sobre os direitos civis na Rádio e Televisão Nacionais, propondo o que se tornaria a Lei de Direitos Civis de 1964.
Kennedy desejava ardentemente que os Estados Unidos liderassem a corrida espacial. Por duas vezes propôs a Nikita Khrushtchev uma parceria na exploração espacial, em Junho de 1961 e no Outono de 1963. Naprimeira ocasião, a União Soviética estava muito avançada em relação aos Americanos em termos de tecnologia espacial. Kennedy estabeleceu pela primeira vez o objectivo de fazer o Homem chegar à lua num discurso a uma sessão cojunta do Congresso, em Maio de 1961. Mais tarde faria um outro discurso na Universidade Rice, em Setembro de 1962 diria: “Escolhemos ir à lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque são fáceis, mas porque são difíceis”.
Na segunda conversa com Khrushtchev, o Russo ficou convencido de que partilhar os custos era benéfico e a tecnologia Americana estava a desenvolver-se rapidamente. Os Estados Unidos tinham lançado o primeiro satélite geo-estacionário e Kennedy tinha pedido ao Congresso para aprovar uma verba de mais de vinte e dois mil milhões de dólares para o Projecto Apollo, que tinha como objectivo colocar um Americano na Lua antes do final da década. Khrushtchev concordou com a parceria no Outono de 1963 mas Kennedy morreu antes de o acordo poder ser formalizado.
A 20 de Julho de 1969, quase seis anos após a morte de Kennedy, o objectivo do programa Apollo cumpriu-se quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornaram os primeiros homens a aterrar na Lua.
O aspecto familiar também teve muito peso durante a Presidência de Kennedy. O Presidente e a sua mulher, Jackie, eram muito novos quando comparados com Presidentes e Primeiras-Damas anteriores e eram ambos extremamante populares, mais como estrelas pop que como políticos, influenciando modas e tornando-se o objecto de numerosas reportagens fotográficas em revistas sociais populares.
Os Kennedys deram um novo vigor e uma nova vida à atmosfera da Casa Branca. Acreditavam que a residência Presidencial devia ser um lugar de celebração das história, cultura e empreendimentos Americanos, assim, convidaram artistas, escritores, cientistas, poeta, músicos, actores, Prémios Nobel, e atletas para os visitarem. Jacqueline Kennedy também redecorou a casa e eventualmente, restaurou todas as suas divisões.
O Presidente Kennedy foi baleado em Dallas, às 12.30h de 22 de Novembro de 1963, enquanto fazia uma digressão política pelo Texas. Foi declarado morto à uma hora da madrugada seguinte.
O seu assassinato teve um efeito tremendo na maior parte da população mundial, muita gente recorda-se vividamente de onde estava quando teve notícia do acontecimento. O Embaixador Americano nas Nações Unidas, Adlai Stevenson afirmou perante a Assembleia Geral: “todos nós carregaremos a dor da sua morte até ao dia da nossa”.
Em última análise, a morte o Presidente Kennedy e a consequente confusão que rodeou os factos do seu assassinato são de importância histórica e política até aos nossos dias pois marcaram o declínio da crença do povo Americano nas instituições políticas. Associada ao assassinato do seu irmão Robert e ao do Reverendo Martin Luther King, nos cinco anos tumultuosos que se seguiram a 1963, iniciou uma desilusão crescente relativamente à esperança de mudança política e social que tanto marcou as vidas dos que viveram nos anos sessenta.
Muitos dos discursos de Kennedy, (especialmente o seu discurso de posse), tornaram-se icónicos, e, apesar do seu mandato relativamente curto e das poucas mudanças legislativas que ocorreram durante esse período, os Americanos ainda o consideram como um dos seus melhores Presidentes, a par de Abraham Lincoln, George Washington e Franklin Delano Roosevelt. Alguns excertos do seu discurso inaugural estão gravados na sua lápide, no cemitério de Arlington.
Doze dias antes do assassinato de Kennedy, comemoravam-se 40 anos da fundação da República da Turquia e os 25 anos da morte de Kemal Ataturk, por essa ocasião, o Presidente Americano dirigiu uma mensagem ao povo Turco que começava assim:
“I am happy to join in commemorating the 25th anniversary of the death of Kemal Ataturk. The name of Ataturk brings to mind the historic accomplishments of the great men of this century, his inspired leadership of the Turkish People, his perceptive understanding of the modern world and his boldness as a military leader.”
(Estou feliz por me juntar às comemorações do 25º aniversário da morte de Kemal Ataturk. O nome de Ataturk traz à memória os feitos históricos dos grandes homens deste século, a sua inspirada liderança do povo Turco, o seu entendimento perspicaz do mundo moderno e a sua bravura como líder militar).
O próximo alvo deste Breviário vai ser Kemal Ataturk.
Afixado por
Pedro Estadão
às
19:07
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Passo a publicar uma carta de um leitor que me chegou hoje, acompanhada por um artigo publicado pelo mesmo no Semanário Económico de 7 de Julho de 1997, que encontrarão publicado como comentário a este post.
“Sendo senhor dos senhores, nunca quis
nem parecer servo dos servos”
D. João II, Rei de Portugal
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Caro Pedro Estadão,
sendo avô de um dos descendentes de D. João II (» Brites Anes A boa Dona » Brites Anes de Santarém) gostei muito do seu trabalho.
Como me dedico à cibernética social -Estratégia e Liderança- observo o seguinte:
Devido ao comportamento linear e algo confuso do seu pai, D. João II encontrou uma situação que tinha saido fora do leme, com "os frades ricos e a ordem pobre" (-tal como, aliás, acontece hoje em dia com a "pax americana" and her partners in misleadership", incluindo e sobretudo a UE e cada um dos seus estados membros » "candeias às avessas").
Daí, D. João II tomou as seguintes medidas: contenção do "mal" ou, melhor
dito, "limpeza"). As mesmas, bastante draconianas e mecanicistas sob o ponto
de vista de hoje, resultaram em ganhos de poder primeiro não solidário. Aproveitou essa liberdade de movimentos (fôlego) para tomar a medida certa que lhe permitiu transformar o poder inicialmente não solidário em poder solidário:
fez do fomento decidido aos descobrimentos portugueseses a sua primeira prioridade governamental o que acabou por lançar Portugal na "saga épica da busca do caminho marítimo para a Índia" por si referida. Com outras palavras: deu a Portugal um novo perfil, um novo designio, de índole extrovertido e alterocêntrico que depois Camões descrevera como "dar novos mundos ao mundo". Foram estas medidas que fundamentaram o sucesso português de então levando o país a uma grande ascensão sócio-económica, cultural e ecológica. Com efeito, a partir dos séculos 15 e 16 Portugal acertou,
para falar na minha linguagem, no "ponto cibernéticamente mais eficaz" que despoletou a espiral positiva daquela ascensão da qual não só Portugal mas outros países d Europa e do mundo tiraram grande partido. Claro, os portugueses também não eram altruistas, eles também perseguiam os lucros materiais, contudo a forma como o fizeram observou, intuitivamente, as regras das leis naturais da evolução, ou seja, primeiro dar, para receber depois. Isso, sempre em combinação com o know how e consequente poder dos especialistas.
Para mim, a maior proeza e maior mérito de D. João II consiste nessa reorientação estratégica que fez com que o país deixasse de reagir e que comecasse a AGIR, dando cartas de acordo com os seus pontos fortes únicos e inconfundíveis.
Infelizmente, esse sucesso, com o comportamento linear (natural), no decorrer dos séculos convertiu-se num insucesso crónico, pois, observado de mais perto, o país desde então começou a olhar para dentro, querendo então bater-se, sistematicamente, com armas que outros dominam melhor. É o "me too".
O outro dia, vi essa minha tese corrobaorada por Roberto Carneiro que afirmou na SIC Notícias, perante o meu aplauso incondicional, mais ou menos, como segue:
"(...) Sempre quando Portugal olhou para fora, o país esteve bem, sempre quando se fechou em copas e olhou para dentro, então as coisas andaram mal (...)". Continuou: "(...) Por isso, temos é que agir e olhar para fora, sem termos medo nem da Espanha, nem da Europa (...)" Quando ele disse "Europa" o meu aplauso cessou e fiquei sem graça: lá estava outra vez esse preconceito de um Portugal e uma Espanha de um lado e a tal "outra Europa" -será a do adamastor ?- a outro. (O magazine alemão DER SPIEGEL já observou nos anos setenta que "na Grécia e em Portugal as pessoas falam da Europa como se não fizessem parte dela".)
É imperioso que esse preconteio de outros tempos seja superado para que Portugal saia da estagnação. Todavia, não se trata de um problema apenas português mas sim da União Europeia na qual o país se encontra integrado. De facto, o sistema UE encontra-se desde há mais de três décadas às avessas e essa situação não ajuda muito na urgente reorientação estratégica de Portugal.
Porém, cada estado membro -também Portugal !- poderá saír deste círculo vicioso, dando então exemplo para o sistema. Escrevi sobre este tema no Semanário Económico de 07.07.1997. Um governante que tinha recebido, em 1999, um cópia do meu artigo, porventura, deve ter achado interessante.
Não tenho a certeza, mas facto é que em 2002 começou uma grande iníciativa para
desenvolver Angola e alguns dos argumentos citados pelo Expresso podiam ser minhas. Só que, infelizmente, esse governante às tantas "fugiu" para Bruxelas e como as coisas estão hoje não é fácil de descobrir.
Será preciso o país esperar até que chegue um novo D. João II com métodos de correcção oxalá* menos violentos ?
Melhores cumprimentos
Rolf Dahmer
* A propósito de "oxalá" ! Se a UE continuar a via linear de perseguir os jogos de soma nula, mais dia, menos dia teremos, começando por Portugal e
Espanha, novamente a forma antiga do termo na Europa. "inch-allah" .
:-)
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Pedro Estadão
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00:28
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Frequentemente, políticos menos escrupulosos embarcam em cruzadas que visam a sua própria promoção à custa do bom nome de outros. Este fenómeno, que consiste numa exploração pouco escrupulosa da queda em desgraça de uma qualquer figura pública, frequentemente alimentada por mentiras ou meias verdades sobre a sua vida privada ou sobre a moralidade das suas acções, (pelo personagem que procura a ascensão), chama-se a “Fogueira das Vaidades”. É uma das formas mais habituais de usar um bode expiatório para atingir objectivos políticos, aproveitando a natural inveja que a pessoa que se quer que caia em desgraça possa suscitar nos outros, (pares ou eleitores).
O termo “Fogueira das Vaidades” nasceu no dia de Carnaval de 1497, quando os fanáticos seguidores do padre Girolamo Savonarola, (o mesmo que é retratado no livro “A regra de quatro”, de Ian Caldwell), reuniram e queimaram publicamente milhares de objectos em Florença. Entre estes encontravam-se livros, manuscritos de peças musicais, quadros e muitos artigos de luxo como espelhos, cosméticos ou vestuário, mesas de jogo, e outros objectos supostamente pecaminosos a que conseguiram deitar as mãos. Conta-se que terão sido queimadas todas as cópias do Decameron de Bocaccio e das obras de Ovídio que haviam, na época, em Florença e que o próprio Boticelli foi obrigado deitar quadros seus ao fogo.
Estas fogueiras de vaidades não foram inventadas por Savonarola, de facto, eram um acontecimento relativamente comum época e os actos deste padre baseavam-se nas fogueiras que frequentemente acompanhavam os sermões de São Bernardino de Siena, na primeira metade do Séc. XV. Os primeiros registos deste tipo de fogueiras datam do tempo dos antigos Egípcios.
Dois anos depois, em Granada, um auto de fé ordenado pelo Arcebispo Cisneiro levou à incineração pública de mais de um milhão de livros Árabes e Hebraicos. A Santa Inquisição, de resto, foi profícua neste tipo de acções ao longo de todo o Sec. XVI.
No final do Séc. XVII, as obras de vários autores, entre eles e principalmente, as de Thomas Hobbes, foram queimadas nos jardins da Universidade de Oxford. Depois, no final do Séc. XVIII, Robespierre ordenou a destruição pelo fogo das bibliotecas religiosas, bem como de todas as obras que glorificassem a monarquia ou os Reis Franceses, esses livros foram classificados como “Inimigos da França Reformada”.
No Início do Séc. XX, durante a Revolução de Outubro, os Bolcheviques ordenaram a destruição de todos os livros contrários ao Comunismo, incluindo muitas obras religiosas, obras sobre a história Czarista, sobre o nacionalismo, a liberdade ou o lucro económico. Em torno desta realidade, desenrola-se o fabuloso romance de Boris Pasternak, “O Dr. Jivago”, consagrado como um dos melhores filmes de todos os tempos pela lente de David Lean.
Duas décadas mais tarde, os Nazis queimavam publicamente as obras de todos os autores Judeus e de livros apelidados de “degenerados”, num total de cerca de dezoito mil títulos que consideravam não corresponder à sua ideologia
Mais próximo a nós passaram-se alguns episódios similares nos Estados Unidos da América, no tempo do Senador McCarthy, dirigidos aos livros Comunistas, e no Brasil de Getúlio Vargas, que ordenou a queima pública das obras de Jorge Amado.
No alvorecer do nosso Século XXI, mais concretamente em Janeiro de 2001, o Ministro Egípcio da Cultura mandou incinerar seis mil volumes da obra de poesia homo-erótica da autoria de Abu Nuwas, depois de ter sido pressionado por grupos de fundamentalistas Islâmicos.
Os exemplos são muito mais numerosos do que os que nos foi dado descrever aqui, e ocorreram em todas as épocas e em todas as localizações geográficas, no entanto, o mais emblemático destes eventos, por não se limitar à queima de livros, estendendo a diabolização do outro aos próprios objectos que eram considerados simbólicos do pecado foi o que deu o nome a este tipo de acção, a Fogueira das Vaidades de Florença, ordenada por Savonarola.
Quando nos dedicarmos ao tema da censura, no nosso Breviário, exploraremos mais este aspecto das queimas de livros. Hoje, debruçamo-nos sobre o aspecto mais simbólico destas fogueiras e dos seus objectivos psicológicos no controlo das massas, verificando que há paralelos não literais entre o acto concreto de queimar objectos que simbolizam determinado bode expiatório e a exploração da destruição da imagem pública de um qualquer personagem com base em comportamentos supostamente imorais, ilegais ou desonrosos, mesmo que não correspondam inteiramente à verdade.
Esta “Fogueira das Vaidades” simbólica foi magistralmente utilizada por Tom Wolfe no seu romance com esse nome que actualizou o termo para os nossos dias, tornando-o uma expressão comum na descrição de determinado tipo de acções políticas focadas na utilização de um determinado bode expiatório.
21- A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe
“A Fogueira das Vaidades” é o título um romance escrito por Tom Wolfe, em 1987. A história anda à volta dos temas da ambição, do racismo e da ganância na Nova Iorque dos anos oitenta. Apesar do título ter origem na fogueira de Savonarola, a história do livro não se desenvolve em torno desse evento histórico, (o que, na realidade, se passa com um outro livro: “A Regra de Quatro”, de Ian Caldwell). O título refere-se então à vaidade, ao materialismo e à ânsia de poder que marcaram a época dos yuppies.
Sinopse
O enredo centra-se em Sherman McCoy, cuja luxuosa vida como “Mestre do Universo” em Wall Street é destruída quando a sua amante, Maria Ruskin, atropela um jovem negro no Bronx enquanto segue ao volante do carro de McCoy.
Este evento representa uma oportunidade única para Peter Fallow, um jornalista alcoólico e caído em desgraça que escreve para o tablóide City Light. Ao ser persuadido a escrever uma série de artigos sobre o caso de um jovem afro-americano que foi vítima de um atropelamento e fuga por parte de um condutor branco, Fallow suspeita estar a ser usado por um líder político e religioso Nova-Iorquino, o Rverendo Bacon, que está a explorar o acontecimento para progredir na sua carreira política à custa da comunidade negra de Nova Iorque. Bacon encoraja a mãe da vítima, que entretanto ficou em estado de coma a seguir ao atropelamento, a processar o Hospital em que o filho se encontra, por não lhe terem prestado tratamento apropriado, que o poderia ter salvo.
Quando McCoy é identificado como dono do carro que efectuou o atropelamento, Fallow inicia uma série de artigos que insinuam que Sherman McCoy é o culpado. A um dado momento, sabe-se que esta série de artigos lhe vale um prémio Pulitzer. McCoy torna-se o homem mais odiado em Nova-Iorque e torna-se o alvo de numerosas manifestações. Abe Weiss, um ambicioso Procurador Público do Bronx à beira da re-eleição, decide que McCoy tem de ser condenado a qualquer custo, o que inclui a obtenção de um falso testemunho por parte da amante deste. A condenação de McCoy permitiria a Weiss ganhar o apoio da população negra de Nova-Iorque para a sua re-eleição.
Quando a amante de McCoy foge do país com outro homem para evitar ter de admitir que era ela a verdadeira condutora, um investigador privado, contratado por McCoy descobre a gravação de uma conversa incriminatória feita pelo seu senhorio durante um dos seus encontro com Maria Ruskin. McCoy usa a gravação para se livrar das acusações que lhe são feitas na audiência preliminar e quase ocorre um motim à porta do tribunal, durante o qual McCoy perde a cabeça e agride vários manifestantes.
No final descobrimos que o jornalista Fallow se casou com uma mulher rica, Maria fugiu à justiça e McCoy vive na miséria enquanto aguarda julgamento por homicídio involuntário.
Discussão
“A Fogueira das Vaidades” foi a primeira novela de Tom Wolfe. O seu trabalho antes deste livro consistiu fundamentalmente de artigos e livros não-ficcionais. As suas obras de ficção e de não-ficção têm em comum um fascínio intenso com as incríveis histórias e surpreendentes detalhes da vida americana. Tal como o seu trabalho jornalístico anterior, “A Fogueira das Vaidades” funde intriga, enredo e detalhe sociológico. O enredo baseia-se nos conflitos de classes da Nova-Iorque dos anos oitenta e na exploração desses conflitos pelos políticos. Ao longo de capítulos extensos e imensamente texturados, que parecem inspirados em Émile Zola, Wolfe descreve os pormenores mais singulares de cada personagem e de cada circunstância.
A atenção de Wolfe ao pormenor chega a ser cansativa de tão exaustivo que é na descrição de todos os pequenos nadas e nos apartes que faz para nos levar em direcções perfeitamente desnecessárias ao desenrolar da história, no entanto, este facto torna “A Fogueira das Vaidades” um livro único, que nos dá a perceber todos os tons e matizes da sociedade Nova-Iorquina dos anos oitenta. Na versão original, chegamos ao ponto de perceber nos diálogos, toda uma variedade de dialectos e sotaques das diversas zonas daquela imensa cidade.
Em 1990, Brian de Palma realizou o filme com o mesmo nome, baseado na história de Wolfe, que foi nomeado para cinco Óscares, contando no elenco com Tom Hanks, Bruce Willys, Melanie Griffith e Morgan Freeman, entre outros. Um filme que vale a pena ver. De Palma mantém o nome mas dá uma volta completa à história, que chega ao fim muito diferente, mas não menos ilustrativa que a obra de Wolfe.
A cinematografia apresenta uma vaidade própria, com imagens filmadas de todos os planos e com todos os graus de aproximação possíveis, chegando alguns planos a poder ser considerados vertiginosos e alucinantes. De Palma parece nem chegar a usar o livro e a fazer a sua própria história, preservando unicamente a espiral descendente dos personagens McCoy e Fallow. Acaba de vez com o livro ao mudar o final e entregando a Morgan Freeman o papel de Juiz, que no livro é apresentado como sendo Judeu e transformando o julgamento numa paródia circense de conflito racial, que traz ao de cima uma leitura doentia do sistema judicial Americano. No filme, em vez do Juiz Judeu do livro, é um Juiz Negro que faz a sensível leitura política final. Imperdível.
Enfim, cada história muda conforme quem a conta, mas no final, o sentido genérico é o mesmo: A ganância e a inveja são ingredientes poderosos para a criação de bodes expiatórios e a vaidade, a luxúria do poder e a sensação de impunidade são provavelmente a principal causa da queda em desgraça de figuras mais ou menos públicas.
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Pedro Estadão
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Obrigado amigos.
Aqui vai mais uma breve paragem para assinalar uma efeméride.
30 artigos publicados, 2198 visitantes únicos, a maior parte dos quais vindos dos motores de busca à procura de definições para assuntos do seu interesse, e 5000 cliques nas diversas páginas do nosso modesto blog, (pouco mais de 2 por visitante).
Os artigos mais visitados continuam a ser os que se relacionam com a Maçonaria, imediatamente seguidos do artigo sobre o "Mercador de Veneza".
Continuando a agradecer a vossa atenção, reforçamos aqui o nosso compromisso de continuar a apresentar, no nosso blog, conteúdos de qualidade.
Até breve.
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Pedro Estadão
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